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RUI SOARES COSTA

O aparo da caneta de negra tinta que percorre o papel, inseparável dele, é a extensão natural e inexorável dos dedos da mão que desenha, livre e suspensa no ar pelo pulso, que assim impede que a carne, que é sempre fraca, se apoie, repousando, na superfície lisa e despautada da folha, enquanto persiste no movimento.

E que desenha, livremente, essa mão?

A vista aérea de cada um dos pontos que se deslocam, formando, com o seu rasto, linhas humanamente rectas e, por isso, perfeitamente imperfeitas e paralelas, que deles narram a biografia, enquanto rasgam com o seu negrume a brancura da superfície e se prolongam até ao limiar do papel, onde julgam chegar pelo poder do seu livre arbítrio.

É aí que se dá o fim da sua odisseia particular que, na verdade, não é mais do que a capitulação do desenhador ao olhar que se turva e à dor que lhe invade progressivamente os músculos da mão que desenha, vítimas primeiras do próprio gesto e da estranha caligrafia que ele produz.

Após uma merecida pausa, cuja duração é livre de decidir, o Sísifo desenhador recomeça, então, meticulosamente, à distância mínima que lhe é possível da linha anterior, narrando a história paralela de um novo ponto.

Também ele, Sísifo, está convencido que é livre, que a qualquer modo poderá abdicar da sua compulsão, quando, na verdade, é nada mais que um ponto humano que se desloca naquilo que se revelará, um dia, ser um segmento de recta que une dois números de quatro dígitos, aqueles que ditam o seu início e fim.

Pedro Goulão
Junho 2019